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Perspectivas Recentes
Daisy Peccinini
pesquisadora MAC USP
Na tentativa de mostrar alguns eixos, ou núcleos, onde transita a arte contemporânea da coleção do MAC, dos anos 90 e da primeira década do terceiro milênio, foram selecionadas com este critério obras relacionadas a três eixos: a questão da Vida e da Morte; neoconstrutivismo e arte e tecnologia e finalmente a arte da era da globalização, simbioses do local e do global. O traço comum reside no caráter complexo da cultura e da arte atual, nos poliglotismos e hibridismos, decorrentes do ilimitado experimentalismo da arte contemporânea.
A relação da vida e da morte, onde se imbrica a questão do corpo, é um elemento caracterizador e obrigatório, de nossos tempos e foco de estudos, produções sensíveis interdisciplinares, bem como o de representações complexas em diferentes campos de reflexão e percepção, da performance à fotografia, passando pelas técnicas da pintura e da escultura. A instalação e de Fabiana de Barros diferentes graus da escala, que podem de ser percorridos por este tema. Com seu trabalho Life Vests , (1990/91) expõe mediante metáforas indicativas a vulnerabilidade da vida os riscos de perda da vida que anima o corpo, o perigo a que se expõe e a inexorabilidade da morte. De forma também metafórica Ricardo Basbaum elabora NBP (Novas Bases para a Personalidade), 1991, uma construção em polígono irregular apoiado na parede, simbolicamente em suas qualidades plásticas refletem as incongruências e a instabilidade da vida, corpo-persona no mundo atual. De forma impactante a vida e a morte se entrecruzam, na monumental obra, assemblage de Carmela Gross, Sem Título (1997), velado por negros véus, que cascateiam - viúva ou noiva - a ausência de título, dá-nos o benefício de imaginar ou abrir várias possibilidades de visão e significados. As possíveis metáforas ancoradas neste trabalho são induzidas mediante procedimentos minimalistas, poucos e usuais materiais. Apesar das grandes dimensões a leveza, a morte e a vulnerabilidade da vida emanam como qualidades sensíveis, dialogando com a instalação de Fabiana de Barros.
Como a arte se envolve com o tema da morte ela pode ressaltar ou integrar-se à vida. O trabalho de Amélia Toledo Caderno de Azul , (1990/92) associa radicalmente a fibra natural da juta aos pigmentos azuis; articula matéria-espaço-função-cor que se interpenetram, como diz a artista. A energia da cor azul vibra na trama delicada da juta e promove um espaço de meditação e de recolhimento. Os cortes da juta foram ajustados como páginas de um enorme caderno imanando qualidades de vida, paz e descanso, através das inter-relações dos campos de cor azul.
Os neoconstrutivismos constituem em outra faceta do contemporâneo; desta vertente a grande instalação de Jesus Soto Penetrável de Plástico , s.d. que em seu percorrer, estimula as leis de gestalt, ao mesmo tempo a excitação óptica, com o cinetismo dos elementos em interação também tátil com os visitantes. As grandes dimensões reforçam o clima de espetacularidade e sensualidade, que permeia a arte de hoje.
A civilização das imagens reitera a incitação ou a tensão do olhar com no trabalho. Visão 0.002 , 1993 de Annarrê Smith, um convite a dilatar pupilas, a expandir o olhar a 180°, com recursos construtivos da medida e proporção matemáticas. A tela de Sonia Von Brusky, da Série dos Círculos Partidos , 1993, configura a aplicação da lei dos fractais, intermediando o processo da pintura e a sintaxe das formas geométricas da composição.
Robert Rauschenberg
Sem Título, 1994
Outro eixo da arte contemporânea nessa galeria é o processo de globalização que reforça a questão das identidades culturais, locais, através dos trabalhos do cearense Eduardo Eloy, do amazonense Bené Fonteles, do mineiro Marcos Coelho Benjamin e do pernambucano Romero Britto, em diferentes suportes são exemplares de linguagens geradas no fenômeno da chamada globalização simbioses do global e do local. Estas manifestações convertem a arte contemporânea em um fascinante caleidoscópio.
Eduardo Eloy
Sem Título, 1992
Observar as apropriações derivadas da cultura local mescladas com o espírito de experimento e complexas carga metafórica e simbólica. Na pintura Sem Título , 1992, de Eloy, vibra o surrealismo eterno, que Breton achava tão presente nas terras da América Latina. Uma fantasia singular, fruto do imaginário nordestino - figuras embrionárias, dos alegres mamulengos e dos calungas das garatujas infantis, tudo mergulhado em cores alegres. Bené Fonteles, e sua preocupação ecológica-ambiental traduzem a apropriação do mundo selvático natural em relevos de papel artesanal, fibras e adereços. O mundo da infância, das tradições dos doces mineiros, submetido a uma reflexão e organização minimalista se desdobra na lona de Marcos Coelho Benjamim, Sem título , 1992 . Os micro-objetos, como canudos de latão para fritar a massa e rechear de doce-de-leite, com mechas de algodão sobre lona de caminhão, estão dispostos atendendo a uma sensibilidade de ritmos, luzes e volumes a sensibilidade dos ritmos, das luzes, dos volumes para chegar ao indizível. Na pintura em signos, gráficos embebidos de cromatismo brasileiro, Romero Britto, Sem Título , 1995 dá forma narrativa, compondo, como histórias em quadrinhos, janelas que mostram fragmentos/ecos das imagens da literatura de cordel.
No mundo de emergência de alteridades, o feminino é uma temática que tem sido destacada quer no sentido de mulheres artistas, quer na própria expressão do feminino nas artes. Neste rápido prospectar do território do contemporâneo da coleção do MAC, na galeria 2 torna-se clara a multiplicidade de caminhos possíveis, e nesta variabilidade repercuta as infinitas possibilidades do ato criador do artista.
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