intervenção sobre
Hildegard Rosenthal
Bonde I, 1939
fotografia p/b s/ papel
Coleção MAC USP

Distante das ousadias da fase pioneira do Modernismo, a arte, pouco teórica e bastante prática, se desenvolve no Brasil desde 1930. Calcada na visão direta do ambiente natural, humano e social, essa arte pertence a um quadro histórico e a uma política desfavorável à liberdade cultural. Entretanto, tem ganhos no processo de renovação plástica do país e nas buscas sociais da arte. Essa afirmação apóia-se no espírito de união dos artistas. Por eles foram criados vários grupos relevantes para a trajetória da arte moderna, que enfrentava a oposição das tendências acadêmicas. Entre os grupos, um dos mais consistentes é o Santa Helena, o núcleo de reflexão da mostra Operários na Paulista .
O Grupo começou a se formar a partir de 1934, quando os artistas foram chegando ao Palacete Santa Helena, no. 43 (posteriormente no. 247) da antiga Praça da Sé, convivendo, até o final da década, em salas transformadas em ateliês. Em meio às transformações sociopolíticas da Revolução de 1930 nascia o grupo denominado Santa Helena, constituído por Aldo Bonadei (1906-1974), Alfredo Rullo Rizzotti (1909-1972), Alfredo Volpi (1896-1988), Clóvis Graciano (1907-1988), Fulvio Pennacchi (1905-1992), Humberto Rosa (1908-1948), Manoel Martins (1911-1979), Mário Zanini (1907-1971) e Rebolo Gonsales (1902-1980). Na visão de Rebolo, o Santa Helena não começou como um movimento: "(...) foi transformado em movimento pelos intelectuais". Um grupo formado por meia dúzia de amigos, cujo traço comum era não gostar de acadêmicos e querer a "pintura verdadeira" que não fosse anedótica ou narrativa. "A pintura pela pintura".


Palacete Santa Helena

A origem social do grupo e as afinidades profissionais e artesanais motivaram a denominação de "artistas proletários" por Mário de Andrade. Nessa direção coloca-se o termo "artista operário". No Palacete Santa Helena, uniram-se artistas ligados a trabalhos de simples pintura de paredes ou de decoração de residências em sua luta pela sobrevivência. Voltados ao seu ofício, à necessidade associativa, ousaram partir de um aprendizado básico através de "lições de atelier " com o objetivo comum de "fazer pintura" como operários da própria arte. De fato, o que os unia como artistas era a preocupação de sensibilizar as atenções através das qualidades artesanais da pintura.

Operários na Paulista vem lembrar os registros realizados em um período em que a metrópole paulista passava por grandes passos de desenvolvimento, após problemas críticos de anos anteriores e vividos no próprio contexto. Os santelenistas correspondem à situação sociocultural de uma metrópole em rápida expansão, com forte presença italiana. Volpi e Pennacchi são italianos, enquanto Bonadei, Graciano, Rosa, Rizzotti e Zanini são filhos desses imigrantes; Rebolo é descendente de espanhóis e Manoel Martins, de portugueses. Quase todos exerciam profissões que os mantinham no seu dia-a-dia. Volpi, Rebolo e Zanini eram pintores de parede; Rizzotti, torneiro; Bonadei, bordador; Pennacchi, açougueiro; Graciano, ex-ferroviário e ex-ferreiro, e Manuel Martins, aprendiz de ourives.

A temática é motivada pelo deslocamento de um núcleo de obras do Museu de Arte Contemporânea (MAC USP), sede na Cidade Universitária, para a Galeria de Arte do SESI/SP, pertencente ao Serviço Social da Indústria à Departamento Regional de São Paulo. Adjacente está uma homenagem a esta instituição que sempre procurou valorizar o trabalhador. Além de obras selecionadas do acervo do MAC USP, estão algumas obras do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB USP), do Palácio da Boa Vista em Campos do Jordão e de outras coleções particulares, que procuram completar leituras de obras e de contextos. Inclui, ainda, desdobramentos das atividades dos santelenistas junto à Família Artística Paulista e à Osirarte.

Nas obras expostas é possível comparar a São Paulo que cresce com os seus primeiros prédios e aquilatar, no momento presente, o traçado das regiões suburbanas. Cenas populares de bares e ruelas constituem convite à memória histórico-social. Em 1940, por exemplo, cerca de 30 mil veículos trafegavam em São Paulo, onde surgiam problemas de estacionamento. Para resolvê-los, o largo da Sé já se havia transformado numa imensa garagem de veículos.


Hildegard Rosenthal Praça da Sé III, 1939 fotografia p/b sobre papel acervo MAC USP

Gigantescas obras começaram a mudar a paisagem urbana. Entre 1935-38, iniciaram-se os anos de volumosas construções: o Estádio Municipal, o novo Viaduto do Chá; a Avenida 9 de Julho, a Biblioteca Municipal, a fundação da Universidade de São Paulo e a Avenida Ibirapuera. "São Paulo não pode parar!" No começo da década de 1940, a capital paulista já era a cidade que mais crescia no mundo em área e população. Era o maior centro industrial da América Latina.

Hoje, ao refletir sobre as contribuições dos artistas do grupo Santa Helena, é incontestável a marca deixada pelo contexto social em suas obras. Prevalecem em suas representações as paisagens humildes, despojadas, os arrabaldes, trabalhadores anônimos, as naturezas-mortas, a figura humana popular, os temas religiosos e alguns outros motivos e registros do modo de vida dos componentes do grupo. São pontuações que a mostra Operários na Paulista procura oferecer, dando oportunidade a novas reflexões sobre o papel social da arte ou mesmo da promoção humana.

<< voltar