A coleção do MAC USP apresenta nesta mostra os trabalhos feitos no anonimato e com afinco por artistas que atuaram em São Paulo nas décadas de 1930 e 1940, e tinham no metier da pintura uma segunda profissão. Em sua maioria objetos de sua coleção, com alguns significativos empréstimos do IEB USP, do Acervo Artístico dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo e de coleções particulares. A exposição tem o núcleo centrado em pinturas e desenhos de nove artistas que se reuniam no Palacete Santa Helena na borda da Praça da Sé. Destes - Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Clóvis Graciano, Francisco Rebolo, Fulvio Pennacchi, Manoel Martins e Mário Zanini são artistas do acervo do MAC USP, com exceção de Humberto Rosa e Alfredo Rizzotti que vem completar a evocação deste cenáculo de laboriosos artistas, que no seu empenho de criação reservavam horas noturnas, fins de semana para seu fazer artístico.



A temática abordada pode ser agrupada em naturezas-mortas, paisagens - urbanas, suburbanas, rurais e litorâneas- e figuras - retratos, cenas religiosas, reuniões e festas populares.

Desenhos e pinturas predominam como técnicas desenvolvidas, com poucos exemplos de arte gráfica, como as gravuras de Manoel Martins.

Em torno do grupo do Santa Helena a mostra busca destacar participantes de dois acontecimentos relacionados ao grupo - Família Artística Paulista e Osirarte.

Neste sentido, a atuação do pintor italiano Paulo Rossi Osir foi importante, pois tanto informava e formava os santelenistas sobre os segredos do ofício da pintura, técnicas e composição de formas e cores, foi o idealizador da associação Família Artística Paulista formada pelos santelenistas e outros com a finalidade de dar espaço e visibilidade aos artistas através de exposições pois estes estavam distanciados dos salões acadêmicos e do círculo dos modernistas. Da coleção do MAC USP são mostradas as obras de artistas que participaram das três exposições da FAP, as de 1937, 1939 e 1940, as obras dos modernistas Anita Malfatti e John Graz, e os novatos Armando Balloni, Hugo Adami e Joaquim Figueira. Os artistas que estão presentes na mostra de 1939, as de Ernesto de Fiori, importante mentor para a pintura de Volpi e Mário Zanini, e as de Cândido Portinari, que foi o expositor de honra desta exposição. Ainda no contexto da FAP, mostra de 1940, os trabalhos de juventude de Carlos Scliar de mesma temática e época das de Bonadei e as de outro importante interlocutor dos santelenistas, Vittório Gobis.

A Osiarte, pequena firma de azulejos fundada por Paulo Rossi Osir, foi outro espaço da atuação laboriosa e mesmo proletária de alguns santelenistas e outros - na mostra estão destacados trabalhos de Volpi e Mário Zanini bem como de Hilde Weber.

Ainda o acervo do MAC USP possui preciosos documentos, fotos e livros de época, que oferecem ao público a leitura desse tempo, seu espaço e idéias. Revelados nas fotos de Hildegard Rosental estão aspectos de época da cidade de São Paulo e alguns personagens do tema da mostra. Por outro lado são apresentados os livros que foram de referência e consulta dos santelenistas, da biblioteca de Paulo Rossi Osir, adquirida pela Universidade de São Paulo, nos dão indicações sobre o foco de suas preocupações de ordem do metier.

Todos os elementos desta exposição convergem para o delineamento da significativa contribuição destes artistas operários para formação de uma escola paulista, como afirmava Mário de Andrade, ou mesmo para configuração de um capítulo especial, de caráter paulistano, da história da pintura da Modernidade no Brasil.

Daisy Peccinini
divisão técnico-científica de acervo / MAC USP


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