Fotógrafos da Vida Moderna

Helouise Costa
Curadora, vice-diretora do MAC USP

As duas primeiras décadas do século XX presenciaram uma redefinição total dos pressupostos da fotografia. A modernização transformou a experiência visual, obrigando o cidadão urbano a dar conta de um mundo repleto de imagens circulantes, destituídas de solidez e permanência. Devido ao seu caráter mecânico e ao imenso potencial oferecido pela reprodutibilidade, muitos artistas passaram a considerar a fotografia como o único meio capaz de representar a dinâmica da vida moderna. Ademais, ao ser cooptada pelas vanguardas, a fotografia tornou-se uma ferramenta privilegiada para o questionamento das hierarquias tradicionais da arte.

Esta exposição apresenta fotografias que, direta ou indiretamente, remetem-se às transformações culturais advindas da modernização. Foram aqui reunidas imagens da coleção do Banco Santos, do acervo do Museu de Arte Contemporânea e do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. A justaposição dessas coleções mostrou-se reveladora, na medida em que nos permitiu identificar a permanência de certos temas e a reiteração de determinados olhares em diferentes tempos, nos mais diversos contextos sócio-culturais. Esse fenômeno aponta para a internacionalização de uma nova visão de mundo, resultante do intenso trânsito de pessoas, informações, idéias e técnicas, característico do período que abarca as décadas de 1920 a 1950.

Não se tratava de produzir imagens destinadas apenas à contemplação. A fotografia passou a ser entendida prioritariamente como imagem pública de consumo, produzida para circular na forma impressa. É o momento da consolidação de um mercado para a fotografia e da profissionalização da atividade de fotógrafo. Documentar deixa de ser uma tentativa de capturar o real para tornar-se uma atividade de interpretação. Rompe-se, assim, a antiga incompatibilidade entre documentação e experimentação. Do mesmo modo, caem por terra as fronteiras entre a fotografia como expressão artística e a fotografia aplicada.

No conhecido ensaio O pintor da vida moderna, Baudelaire afirma que o seu personagem busca o circunstancial e tudo o que este sugere de eterno. As fotografias desta exposição colocam em evidência as marcas do momento histórico em que foram produzidas e talvez, justamente por isso, pareçam materializar, a um só tempo, o transitório e o imutável que, segundo o poeta, habitam a Modernidade.

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