Flávio de Carvalho
Amparo
de Barra Mansa, RJ, 1899
Valinhos,
SP, 1973
"O que é bom para os outros não é para
mim."
Flávio de Carvalho
Flávio de Rezende Carvalho foi um dos nomes que, durante
os anos 30, não deixou a peteca da Semana de 22 cair. Arquiteto,
engenheiro, cenógrafo, artista plástico, desenhista,
antropólogo amador, antropófago... desenvolvia em
seus projetos um casamento perfeito entre sensibilidade e racionalidade,
arte e ciência, imaginação e realidade. Foi
uma vanguarda em pessoa, seja ao lado de Oswald de Andrade no
teatro - Teatro
de Experiência, seja caminhando junto a Gregori Warchavchik
na introdução da Arquitetura Moderna no país,
ou com Osório César, apoiando a arte dos loucos
já nesses tempos, ou ainda realizando suas famigeradas
Experiências.
Flávio esteve sempre na linha de frente de um combate iconoclasta
que travou durante toda a sua vida. A arte que interessa
é aquela que procura destruir uma suposta verdade,
definiu certa vez sua postura.
De família aristocrática, viveu entre 1911 e 1922
na Inglaterra, onde se formou em Engenharia Civil, enquanto estudava
artes plásticas em um curso noturno da ultra conservadora
King Edward Seventh School of Fine Arts. Foi como freqüentador
de museus que teve seus primeiros contatos com os vanguardistas
europeus. Retornou ao Brasil e não conseguiu se adequar
ao emprego nos cobiçados escritórios Ramos de Azevedo.
Em 1926 foi trabalhar no Diário da Noite como ilustrador
e conheceu o caricaturista do jornal, Di Cavalcanti,
que o apresentou ao grupo antropofágico de Oswald e Tarsila,
cujos valores lhe influenciariam profundamente. Em seguida, instalou
no Instituto de Engenharia um escritório, que lhe valeu
também como residência e ateliê.
A década de 30 é inaugurada pela Revolução
e o clima eminentemente político que agrega as temáticas
dos artistas paulistas parece não se despertar em Flávio.
Agora e sempre, sua dedicação é quase que
exclusiva ao nu feminino -de um exacerbado erotismo, e ao retrato
-baseado na apreensão da psicologia do modelo. Só
que é justamente nesta baliza que se emaranharou seu pensamento
contestatório.
Apresentou seu trabalho pela primeira vez em 1931, no Salão
Revolucionário da Escola de Belas Artes, ao lado de pintores
como Portinari, Lasar
Segall, Cícero
Dias, entre outros. Expôs Anteprojeto para Miss Brasil
e Pensando, ambas de 1931. Nestes dois trabalhos, as mulheres
são captadas pelo artista através de pinceladas
densas e desveladas em formas sensuais. Elas são devolvidas
ao espectador ameaçadoramente, seja com o olho esquerdo
arregalado de uma Miss Brasil negra, seja no ato do pensar,
premissa de qualquer manifestação de rebeldia. E
esses são tempos em que a mulher tampouco tem direito ao
voto.
Em 1932, lutou a favor da Constituição na Revolução
Paulista. Ainda neste ano, ao lado de Antônio
Gomide, Di Cavalcanti e Carlos
Prado fundou o Clube dos Artistas Modernos. Após o
fechamento do CAM em 1934, expôs individualmente pela primeira
vez. Interditada pela polícia, a mostra só pode
prosseguir após interferência judicial. Há
muito seu nome freqüentava a imprensa e era sinônimo
de confusão. Herético era um dos adjetivos
mais suaves que a sociedade lhe inculcava. Por isso, quando o
amigo Quirino da Silva idealizou os Salões de Maio, preferiu
ficar nos bastidores da organização, a fim de não
prejudicar com sua fama a empreitada. Assim o foi
no 1 º (1937) e no 2 º Salão de Maio (1938).
Outras circunstâncias fizeram-no organizar sozinho o 3 º
Salão de Maio (1939).
Em 1947 desenhou a polêmica Série
Trágica ou Minha Mãe Morrendo, que lhe rendeu
mais uma alcunha, a de pintor maldito. Em 1950 representou
o Brasil na Bienal de Veneza. Em 1953, elaborou os figurinos e
o cenário para o bailado A Cangaceira, de Camargo Guarnieri.
Participou ainda de diversas Bienais de São Paulo, sendo
homenageado com sala especial em 1983.
Sua pintura, desenho e escultura de maior qualidade estão
permeadas pelas propostas surrealistas e expressionistas, que
ganham vida no que ele próprio chamou de linhas de
força psicológicas. Mas enquanto artista pleno
que era, passou praticamente por todas as vanguardas (arquitetura
futurista, teatro dadaísta...) e ainda antecipou outras
formas de expressão, como por exemplo suas performances
-as Experiências.
Assumidamente inspirado em Nietzche e Freud, visava à evolução
do homem, que só aconteceria após a superação
dos valores ocidentais, morais e religiosos. Seus estudos transdisciplinares
ignoravam a lógica da fragmentação dos saberes.
A sociedade de seu tempo não conseguiu entender a proposta
e decodificou o fenômeno da genialidade como loucura.
Um dos titãs da nossa Modernidade, foi também uma
ponte para as práticas libertárias da arte brasileira
na década de 50. Morreu em 1973. Fica-nos
para sempre mais um gigante. Flávio Leonardo Cocteau Schoffer
Apolinaire Quant de Carvalho -tataraneto pré-hippie da
Rainha Santa.
Vanessa S. Machado
(bolsista IC / FAPESP)
Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)
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