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As Experiências
"...
A VOZ DE UM ENGENHEIRO - Evidentemente, coagido pela força
bruta, vencido pelo número, vejo-me forçado a continuar
o meu caminho sem chapéu. Mas esse puto (Cristo) me paga!
(som de castanholas. Tumulto).
VOZES - Viva la gracia! Outro toro! Mi cago en dios! Viva o senhor
do Sábado! Tira o chapéu, Flávio! Péo,
péo! Fora! Não tira! Deus da burguesia! Fora! Põe
o chapéu! Desacata esse veado! Fora! Fora!
..."
Trecho da peça "O Homem e o Cavalo", de Oswald
de Andrade.
Numa tarde nublada de Domingo, em 7 de junho de 1931, na Rua
São Bento, Flávio de Carvalho entraria com barulho
na lista dos subversivos e malditos da São Paulo católica.
É que em plena procissão de Corpus Christi, pôs-se
a caminhar no contra-fluxo dos fiéis, com um nada discreto
chapéu verde musgo na cabeça. Naqueles tempos, as
normas que conferiam um comportamento bem educado, ao serem infringidas,
principalmente no que tange o respeito à religião,
eram levadas muito mais à ferro e fogo do que atualmente.
Tanto que o comportamento do nosso artista culminou num tumulto
generalizado. Flávio escapou de um linchamento graças
à intervenção da polícia. Denominou
o acontecimento como Experiência n º 2, relatando-o
num livro com o mesmo nome. A idéia da experiência
teria surgido no momento em que se deparara com a procissão;
ocorreu-lhe que poderia ali fazer uma análise da psicologia
das massas.
Situação parecida se deu em outubro de 1956, porém
desta vez a experiência fora premeditada e resultara de
suas reflexões em torno do que definiu com Dialética
da Moda. Flávio de Carvalho caminhou de saia pelo centro
de São Paulo: era a Experiência n º 3. Para
ele, a roupa era o fator que mais influenciava o homem "porque
é aquilo que está mais perto do seu corpo e o seu
corpo continua sempre sendo a parte do mundo que mais interessa
ao homem". Denominou o curioso modelito que trajava de "new
look" para "o novo homem dos trópicos".
O "new look" era composto por saia cor-de-rosa prissada
-acima dos joelhos antes de Mary Quant, camisa verde e... meia
arrastão e sandália de couro cru. Portanto, a despeito
de seu pensamento sobre a condição da moda, está
explícita a intenção perfomática de
chamar atenção ao corpo na ação.
Ainda que não rotuladas como performances, estas experiências
foram precursoras das práticas artísticas libertárias
de um Hélio Oiticica ou de uma Lígia Pape. Importa
serem tratadas como legítimas formas, não só
de inserção do corpo na arte, para veiculação
de uma mensagem política, como também desta inserção
no espaço da cidade.
Vanessa Machado
(bolsista IC / FAPESP)
Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)
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