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Referência: Flexor e o Abstracionismo no Brasil. São Paulo: MAC-USP, 1991.Referência: BRILL, Alice. Samson Flexor: do figurativismo ao abstracionismo. São Paulo: Edusp, 1990. P. 82.Referência: Arte Construtiva no Brasil: coleção Adolpho Leirner. São Paulo: Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1998. P. 23.Referência: cromo do acervo MAC-USP.Referência: Flexor e o Abstracionismo no Brasil. São Paulo: MAC-USP, 1991.Referência: cromo do acervo MAC-USP.Referência: BRILL, Alice. Samson Flexor: do figurativismo ao abstracionismo. São Paulo: Edusp, 1990. P. 10.Referência: BRILL, Alice. Samson Flexor: do figurativismo ao abstracionismo. São Paulo: Edusp, 1990. P. 98.Referência: negativo p/b do acervo do MAC-USP.Referência: negativo p/b do acervo do MAC-USP.

SAMSON FLEXOR
Soroca, Bessarábia (Romênia), 1907. São Paulo, Brasil, 1971.

“O pintor Flexor é desses que antes de pintores são artistas. (...) É, por exemplo, professor, com essa qualidade intrínseca no professor de saber comunicar, transmitir aos outros experiências e idéias. É músico, bom músico. (...) Sua arte, sua pintura são uma derivação cultural, e por isso não se separam da consciência crítica”, escreveu Mário Pedrosa sobre o artista.

Em 1922, estudou química e cursou a Academie Royale des Beaux-Arts, em Bruxelas. Dois anos mais tarde, cursou a École Nationale des Beaux-Arts, em Paris e, depois, a Academie Ranson, tendo aulas com Bissière. Nesta época era figurativo, sob influência das vanguardas parisienses. Em 1929, participou da fundação do Salon des Surindépendants. Em 1930, naturalizou-se francês e prestou serviço militar nos Alpes, onde conheceu sua esposa Tatiana, que faleceu durante o parto em 1933. Passou a estudar as raízes bizantinas e o simbolismo da arte sacra, fazendo murais e afrescos para igrejas. Em 1934, casou-se com Margot, que o acompanharia durante toda vida. Em 1936, durante a guerra civil espanhola, Flexor realizou cartazes pró-republicanos. Durante a II Guerra Mundial, foi membro da Resistência Francesa, tendo que fugir com a família. Neste período, fez vários trabalhos de temática religiosa, com representações de Cristo. Fez a promessa que, se sobrevivesse à guerra com sua família, pintaria todas as cenas da Paixão de Cristo. Mais tarde, entre 1948 e 1951, já em São Paulo, executou as pinturas nas paredes da Igreja Nossa Senhora de Fátima.

Em 1945, com o fim da guerra, Flexor voltou com a família para Paris. Os focos de seus estudos passaram a ser a geometria, a cor e a luz. Estes quadros foram expostos na mostra Pintores Independentes de Paris, na Galeria Prestes Maia, em São Paulo, quando Flexor veio ao Brasil pela primeira vez. Entre 1947-48, elementos tropicais observados no Brasil aparecem em suas telas, cada vez mais envoltos em uma trama de figuras geométricas, montadas por recortes de planos.

Em 1948, transferiu-se para São Paulo, época em que a cidade fervilhava, expondo na mostra inaugural do MAM-SP, Do figurativismo ao abstracionismo, em 1949, e na I Bienal de São Paulo, em 1951. Influenciado por Léon Dégand, diretor do MAM-SP, passou a considerar cada vez mais que a pintura deveria expressar-se por si mesma – cor, luz, linha, movimento – e não como cópia da natureza, defendendo, portanto, a arte abstrata. As únicas exceções foram suas obras sacras, em que a influência da figura ainda é forte, como Cristo na Cruz, de 1949, do MAC-USP. Flexor foi um formador. Desde sua chegada ao Brasil, recebia alunos em sua casa, fundando, em 1951, o primeiro grupo de arte abstrata no país, o Atelier Abstração.

Nesta época, fez inúmeros exercícios utilizando as leis naturais de harmonia e proporção, estudando o conceito clássico da chamada “proporção divina”. Esta lei grega, resgatada pelo Renascimento, possui elementos ao mesmo tempo matemáticos e místicos, uma integração entre o mundo e a arte. Para os gregos, a matemática possuía uma significação religiosa, com cada número representando um elemento da criação cósmica. Assim, a matemática era utilizada ao mesmo tempo para realizações práticas, mas também para a compreensão espiritual do mundo e do funcionamento da natureza. Flexor retomou estes conceitos, aspirando à representação do mundo em sua pintura na sua origem, na sua pureza. Estes conceitos espirituais da arte abstrata também são encontrados em Kandinsky e Mondrian. São deste período suas pinturas abstratas geométricas, como Geométrico Grande, de 1954, do acervo do MAC-USP, e uma série de exercícios artístico-matemáticos em papel, também deste museu. Neste período, Flexor também executou vitrais e painéis em afrescos, com soluções geométricas.

Em 1956, expôs em Nova Iorque, cidade que iria influenciá-lo profundamente, tornando-o mais aberto à abstração lírica. Em 1958, o artista naturalizou-se brasileiro, e iniciou seus afrescos para a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Em suas obras deste ano, a geometria é apenas sugerida nas diagonais, em tons pastéis, que recebem um tratamento esfumaçado e diluído suavemente, como a obra Pintura, de 1960, do acervo do MAC-USP. O período é também repleto de exercícios em aquarelas sobre papel, devido às suas possibilidades de fluidez e transparência, como Sem Título, 1960, também do MAC-USP. No final da década de sessenta, o artista retornou à figuração, com uma fase sintetizada por Flexor como antropomorfismo. Com seus Bípedes, Flexor medita sobre o humano e sobre o seu mundo destrutivo. São figuras bastante expressivas. Em 1969, o artista desintegrou suas figuras no fundo branco, em um período em que o artista tinha consciência da proximidade de sua própria morte, que ocorreu em 1971. Seu amigo e ex-aluno Jacques Douchez disse sobre este período: “o mestre de outrora, que passava, cheio de entusiasmo, do piano ao cavalete, é agora o homem enfraquecido, que às vezes, lágrimas nos olhos, volta à sua tela onde nascem esses Bípedes, imagens ao mesmo tempo poderosas e miseráveis de uma vida que o abandona” .

O artista participou das I, II, III, IV, VI, IX, XI, XIII e XX Bienais de São Paulo, e da XXVII Bienal de Veneza.

Tatiana Rysevas Guerra
[bolsista]
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
[coordenadora do projeto]