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“O pintor
Flexor é desses que antes de pintores são artistas. (...) É,
por exemplo, professor, com essa qualidade intrínseca no professor
de saber comunicar, transmitir aos outros experiências e idéias.
É músico, bom músico. (...) Sua arte, sua pintura são
uma derivação cultural, e por isso não se separam da
consciência crítica”, escreveu Mário Pedrosa sobre
o artista.
Em 1922, estudou química e cursou a Academie Royale des Beaux-Arts,
em Bruxelas. Dois anos mais tarde, cursou a École Nationale des Beaux-Arts,
em Paris e, depois, a Academie Ranson, tendo aulas com Bissière.
Nesta época era figurativo, sob influência das vanguardas parisienses.
Em 1929, participou da fundação do Salon des Surindépendants.
Em 1930, naturalizou-se francês e prestou serviço militar nos
Alpes, onde conheceu sua esposa Tatiana, que faleceu durante o parto em 1933.
Passou a estudar as raízes bizantinas e o simbolismo da arte sacra,
fazendo murais e afrescos para igrejas. Em 1934, casou-se com Margot, que
o acompanharia durante toda vida. Em 1936, durante a guerra civil espanhola,
Flexor realizou cartazes pró-republicanos. Durante
a II Guerra Mundial, foi membro da Resistência Francesa, tendo que fugir
com a família. Neste período, fez vários trabalhos de
temática religiosa, com representações de Cristo. Fez
a promessa que, se sobrevivesse à guerra com sua família, pintaria
todas as cenas da Paixão de Cristo. Mais tarde, entre 1948 e 1951,
já em São Paulo, executou as pinturas nas paredes da Igreja
Nossa Senhora de Fátima.
Em 1945, com o fim da guerra, Flexor voltou com a família
para Paris. Os focos de seus estudos passaram a ser a geometria, a cor e a
luz. Estes quadros foram expostos na mostra Pintores Independentes de Paris,
na Galeria Prestes Maia, em São Paulo, quando Flexor
veio ao Brasil pela primeira vez. Entre 1947-48, elementos tropicais observados
no Brasil aparecem em suas telas, cada vez mais envoltos em uma trama de figuras
geométricas, montadas por recortes de planos.
Em 1948, transferiu-se para São Paulo, época em que a cidade
fervilhava, expondo na mostra inaugural do MAM-SP, Do figurativismo ao abstracionismo,
em 1949, e na
I Bienal de São Paulo, em 1951. Influenciado por Léon Dégand,
diretor do MAM-SP, passou a considerar cada vez mais que a pintura deveria
expressar-se por si mesma – cor, luz, linha, movimento – e não
como cópia da natureza, defendendo, portanto, a arte abstrata. As únicas
exceções foram suas obras sacras, em que a influência
da figura ainda é forte, como Cristo na Cruz,
de 1949, do MAC-USP. Flexor foi um formador. Desde sua chegada ao Brasil,
recebia alunos em sua casa, fundando, em 1951, o primeiro grupo de arte abstrata
no país, o Atelier Abstração.
Nesta época, fez inúmeros exercícios utilizando as leis
naturais de harmonia e proporção, estudando o conceito clássico
da chamada “proporção divina”. Esta lei grega, resgatada
pelo Renascimento, possui elementos ao mesmo tempo matemáticos e místicos,
uma integração entre o mundo e a arte. Para os gregos, a matemática
possuía uma significação religiosa, com cada número
representando um elemento da criação cósmica. Assim,
a matemática era utilizada ao mesmo tempo para realizações
práticas, mas também para a compreensão espiritual do
mundo e do funcionamento da natureza. Flexor retomou estes
conceitos, aspirando à representação do mundo em sua
pintura na sua origem, na sua pureza. Estes conceitos espirituais da arte
abstrata também são encontrados em Kandinsky
e Mondrian. São deste período suas pinturas abstratas geométricas,
como Geométrico Grande, de 1954, do acervo do MAC-USP, e uma
série de exercícios artístico-matemáticos em papel,
também deste museu. Neste período, Flexor também
executou vitrais e painéis em afrescos, com soluções
geométricas.
Em 1956, expôs em Nova Iorque, cidade que iria influenciá-lo
profundamente, tornando-o mais aberto à abstração lírica.
Em 1958, o artista naturalizou-se brasileiro, e iniciou seus afrescos para
a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Em suas obras deste ano,
a geometria é apenas sugerida nas diagonais, em tons pastéis,
que recebem um tratamento esfumaçado e diluído suavemente, como
a obra Pintura, de 1960, do acervo do MAC-USP. O período é
também repleto de exercícios em aquarelas sobre papel, devido
às suas possibilidades de fluidez e transparência, como Sem
Título, 1960, também do MAC-USP. No final da década
de sessenta, o artista retornou à figuração, com uma
fase sintetizada por Flexor como antropomorfismo. Com seus
Bípedes, Flexor medita sobre o humano e sobre o seu
mundo destrutivo. São figuras bastante expressivas. Em 1969, o artista
desintegrou suas figuras no fundo branco, em um período em que o artista
tinha consciência da proximidade de sua própria morte, que ocorreu
em 1971. Seu amigo e ex-aluno Jacques Douchez disse sobre este período:
“o mestre de outrora, que passava, cheio de entusiasmo, do piano ao
cavalete, é agora o homem enfraquecido, que às vezes, lágrimas
nos olhos, volta à sua tela onde nascem esses Bípedes, imagens
ao mesmo tempo poderosas e miseráveis de uma vida que o abandona”
.
O artista participou das I, II, III, IV, VI, IX, XI, XIII e XX Bienais
de São Paulo, e da XXVII Bienal de Veneza.
Tatiana
Rysevas Guerra
[bolsista]
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
[coordenadora do projeto]