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“Um quadro abstrato não representa, mas se apresenta. Um quadro abstrato não exprime, mas se exprime. Um quadro abstrato em si mesmo, já é uma presença e significa só ele mesmo.”
O atelier-abstração foi o grupo pioneiro no
estudo da arte abstrata no Brasil, iniciado antes mesmo da I
Bienal de São Paulo, considerada marco na divulgação
da arte não-figurativa no país.
Fundado por Samson Flexor, funcionava em sua
própria residência. Até 1954, no número 463 da
Al. Santos, e depois na rua Gaspar Lourenço, no bairro da Vila Mariana,
em São Paulo. Esta última casa foi projetada pelo arquiteto
Rino Levi, amigo do artista, e sua inauguração, em 26 de abril
de 1954, foi um grande encontro cultural, com a presença de artistas,
patronos e intelectuais desta e de antigas gerações, como Ciccilo
Matarazzo, Flávio
de Carvalho, Volpi,
Arthur Luiz Piza, Bonadei,
Gomide,
entre outros.
Durante as aulas, Flexor realizava cuidadosos exercícios
de linhas. Depois, ensinava o uso das cores, primeiro as quentes, depois as
frias. Aos poucos, os alunos iam exercitando a abstração, baseados
em rígidos cálculos matemáticos. No início, desenhavam
um violão em perspectiva, que deveria depois ser abstraído e
geometrizado. Assim, os vícios da academia eram sendo destruídos,
para surgirem artistas novos.
Leopoldo Raimo foi seu primeiro aluno. Raimo
era professor de Clínica Geral e trabalhava no Hospital das Clínicas
em São Paulo. Um de seus alunos, Stanislaw Krynski, o avisou da chegada
de seu tio Flexor ao Brasil. Raimo, apaixonado pela pintura, dispôs-se
a ter aulas com um professor de tendências modernas.
Outro aluno era o francês Jacques Douchez. Este lembra que Flexor tocava
piano durante as aulas para inspirar os alunos. Observamos aqui a influência
de Kandinsky, que fazia analogias entre a pureza e sensibilidade da música
e da pintura.
O atelier era também palco de inúmeras discussões sobre
arte e cultura na época, além de recitais e conferências,
e por onde circulavam outros artistas e intelectuais, como Tarsila
do Amaral, Lasar
Segall, Anatol
Wladyslaw, e André
Lhote, entre outros.
Dentre os alunos do Atelier, os que possuem obras no acervo do MAC-USP são:
Wega Nery, Anésia
Pacheco e Chaves, Alberto Teixeira,
Gisela Eichbaum, Charlotta
Adlerová, Ernestina Karman e
Leopoldo Raimo.
O grupo expôs pela primeira vez no Instituto dos Arquitetos do Brasil,
apoiado pelo Clube dos Artistas e Amigos da Arte, em novembro de 1953. No
ano seguinte, expõe no MAM-SP. A terceira exposição é
realizada em 1956, também no MAM-SP.
Em 1958, Flexor expôs com os alunos Leopoldo Raimo, Jacques Douchez,
Norberto Nicola, Leyla Perrone, Zilda Andrews e Emílio Mallet na Galeria
Roland Aenlle em Nova Iorque. Na volta, as obras foram retidas na alfândega
brasileira, e nunca mais localizadas, sendo leiloadas sem aviso um ano depois,
desaparecendo definitivamente. Após este ano, o Atelier Abstração
I se dispersa. No final dos anos cinqüenta, Flexor reúne novos
alunos, entre eles Charlotta Adlerova, fundando o Atelier Abstração
II.
O grupo seguia as mesmas orientações matemáticas do anterior,
e expôs em 1961, na Associação Cristã de Moços.
Flexor, mesmo após a dissolução do grupo, manteve amizade
com seus ex-alunos. O Atelier auxiliou a formação de uma geração
de artistas brasileiros, e não podemos falar da arte no Brasil nos
anos cinqüenta sem citar sua importância e pioneirismo.
Tatiana Rysevas Guerra
[bolsista]
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
[coordenadora do projeto]