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Referência: Samson Flexor: modulações. São Paulo: Galeria de Arte do SESI, 2003. p. 41.Referência: biblioteca do MAC-USP.Referência: BRILL, Alice. Samson Flexor: do figurativismo ao abstracionismo. São Paulo: Edusp, 1990. P. 78.

ATELIER ABSTRAÇÃO
São Paulo, 1951

“Um quadro abstrato não representa, mas se apresenta. Um quadro abstrato não exprime, mas se exprime. Um quadro abstrato em si mesmo, já é uma presença e significa só ele mesmo.”

O atelier-abstração foi o grupo pioneiro no estudo da arte abstrata no Brasil, iniciado antes mesmo da I Bienal de São Paulo, considerada marco na divulgação da arte não-figurativa no país.

Fundado por Samson Flexor, funcionava em sua própria residência. Até 1954, no número 463 da Al. Santos, e depois na rua Gaspar Lourenço, no bairro da Vila Mariana, em São Paulo. Esta última casa foi projetada pelo arquiteto Rino Levi, amigo do artista, e sua inauguração, em 26 de abril de 1954, foi um grande encontro cultural, com a presença de artistas, patronos e intelectuais desta e de antigas gerações, como Ciccilo Matarazzo, Flávio de Carvalho, Volpi, Arthur Luiz Piza, Bonadei, Gomide, entre outros.

Durante as aulas, Flexor realizava cuidadosos exercícios de linhas. Depois, ensinava o uso das cores, primeiro as quentes, depois as frias. Aos poucos, os alunos iam exercitando a abstração, baseados em rígidos cálculos matemáticos. No início, desenhavam um violão em perspectiva, que deveria depois ser abstraído e geometrizado. Assim, os vícios da academia eram sendo destruídos, para surgirem artistas novos.

Leopoldo Raimo foi seu primeiro aluno. Raimo era professor de Clínica Geral e trabalhava no Hospital das Clínicas em São Paulo. Um de seus alunos, Stanislaw Krynski, o avisou da chegada de seu tio Flexor ao Brasil. Raimo, apaixonado pela pintura, dispôs-se a ter aulas com um professor de tendências modernas.

Outro aluno era o francês Jacques Douchez. Este lembra que Flexor tocava piano durante as aulas para inspirar os alunos. Observamos aqui a influência de Kandinsky, que fazia analogias entre a pureza e sensibilidade da música e da pintura.

O atelier era também palco de inúmeras discussões sobre arte e cultura na época, além de recitais e conferências, e por onde circulavam outros artistas e intelectuais, como Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Anatol Wladyslaw, e André Lhote, entre outros.

Dentre os alunos do Atelier, os que possuem obras no acervo do MAC-USP são: Wega Nery, Anésia Pacheco e Chaves, Alberto Teixeira, Gisela Eichbaum, Charlotta Adlerová, Ernestina Karman e Leopoldo Raimo.

O grupo expôs pela primeira vez no Instituto dos Arquitetos do Brasil, apoiado pelo Clube dos Artistas e Amigos da Arte, em novembro de 1953. No ano seguinte, expõe no MAM-SP. A terceira exposição é realizada em 1956, também no MAM-SP.

Em 1958, Flexor expôs com os alunos Leopoldo Raimo, Jacques Douchez, Norberto Nicola, Leyla Perrone, Zilda Andrews e Emílio Mallet na Galeria Roland Aenlle em Nova Iorque. Na volta, as obras foram retidas na alfândega brasileira, e nunca mais localizadas, sendo leiloadas sem aviso um ano depois, desaparecendo definitivamente. Após este ano, o Atelier Abstração I se dispersa. No final dos anos cinqüenta, Flexor reúne novos alunos, entre eles Charlotta Adlerova, fundando o Atelier Abstração II.
O grupo seguia as mesmas orientações matemáticas do anterior, e expôs em 1961, na Associação Cristã de Moços.

Flexor, mesmo após a dissolução do grupo, manteve amizade com seus ex-alunos. O Atelier auxiliou a formação de uma geração de artistas brasileiros, e não podemos falar da arte no Brasil nos anos cinqüenta sem citar sua importância e pioneirismo.

Tatiana Rysevas Guerra
[bolsista]
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
[coordenadora do projeto]