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Referência: cromo do acervo do MAC-USP.	Referência: Anésia Pacheco e Chaves. São Paulo: Galeria Atrium, 1965.

ANÉSIA PACHECO E CHAVES
Paris, França, 1932.

“A minha opção é principalmente crítica. Transgressora de uma série de valores que estão em mim, no meu próprio trabalho, no sistema de arte no qual transito”, disse a artista, em depoimento, em 1977, no MAC-USP. Anésia, ao mesmo tempo em que trabalha a ruptura de sistemas e tradições, é uma artista confessional, que busca entender a si mesma, entender sua condição de mulher, e propor ao público a realização do mesmo processo.

Nascida na França, mas vivendo em São Paulo desde os quatro anos, Anésia cursou dois anos da Escola de Belas Artes, em São Paulo, e estudou com Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Lívio Abramo e Samson Flexor, no Atelier Abstração. Em Paris, a partir de 1952, cursou a Académie de La Grande Chaumière, e História e Crítica de Arte na “École du Louvre”, além de ter estudado com Fernand Lèger e André Lhote.

Nos anos sessenta, a artista realizou pinturas em que fazia incisões. Desta fase, escreveu Geraldo Ferraz, em mostra da artista na Galeria Atrium, São Paulo, em 1965: “a nota dominante de sua temática é esta forma negra, porque nela a artista pôs todo seu silêncio e sua contenção”. A partir de 1972, começou a mesclar seus trabalhos com palavras escritas, estudando dicionários de símbolos. No início, brincava com o espectador, deixando-as em relação ambígua ou contraditória. Depois, passou a integrar as palavras para transmitir idéias diretas. “Parti da forma simbólica: o círculo, o quadrado, a espiral, a pirâmide, o oval, etc. Aí apareceram as letras e a seguir as palavras. No início a procura de uma complementação; a seguir confrontação. Duas maneiras de expressão: uns subconsciente (a forma simbólica) e outra mais conscientizada (a letra, a palavra) se defrontam e se colocam mutuamente em questão”, disse a artista (In: Folha de S. Paulo. São Paulo, 17/06/1974).

A partir de 1975, a artista realizou uma série de livros-obra. Tratava-se de uma nova forma de expressão artística, na qual o público tinha o contato direto com a obra, folheando-a, e encontrando conteúdos os mais diversos: desenhos, colagens, pinturas, textos, gravuras, entre outros. Por um lado, os livros-obra tentavam romper com as formas artísticas vigentes e criar problemas aos sistemas capitalistas de arte. Por outro, o público entrava em contato com verdadeiros diários de artista, aumentando a compreensão a respeito do funcionamento da criação artística.

“Os trabalhos de Anésia não foram feitos para serem descritos, mas para serem vistos e interpretados. Certamente, cada espectador colocará muito de si mesmo nas interpretações, o que de fato, se constitui num dos anseios de sua realizadora”, disse Ernestina Karman, em artigo da Folha de S. Paulo, de 02/07/1975. “As mulheres fizeram e fazem seus diários com receitas, poemas, pensamentos e sua vida. Acho que este tipo de produção quase nunca recebeu atenção”, disse Marta Suplicy, no mesmo jornal, em 11/11/1980. Anésia não só transformou o cotidiano, a memória e os anseios de uma mulher em obra, mas como, neste período, revolucionou seus meios, transformando a leitura dos cadernos pela própria artista em documento áudio-visual, os Cadernos de uma Mulher.

A artista participou de diversas Bienais de São Paulo, e Salões Paulistas de Arte Moderna, obtendo medalhas de prata e bronze. Publicou os livros Cadernos, E agora mulher, Rolos e Manchas.

Tatiana Rysevas Guerra
[bolsista]
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
[coordenadora do projeto]