“A idéia é o espaço abstrato
A realização é um espaço-tempo

A superfície modulada é a materialização da idéia-espaço
A idéia-espaço deve ser realizada dentro do seu próprio tempo

A superfície é construída em função da necessidade da idéia-espaço a imprimir
A superfície só é bidimensional quando préexiste à idéia-espaço

Linhas absolutamente iguais, horizontais e verticais, produzem entre si uma tensão oblíqua distorcendo um quadrado perfeito: o espaço então se revela ali como um momento do espaço circundante

O espaço é na verdade o símbolo de nossa época.”

(Lygia Clark, 1958) In: Clark. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1958.


Mário Pedrosa, no artigo “Significação de Lygia Clark”, publicado no Jornal do Brasil, em 23/10/1960, comentou que em 1957 a artista já escrevia em seus diários que as obras deveriam “exigir uma participação imediata do espectador.” Pedrosa disse que o conceito de espaço havia sofrido uma profunda alteração em nossa época, desde que Moholy-Nagy, seguindo os passos de Gabo-Pevsner, havia realizado projetos que relacionavam “o homem, o material, as forças e o espaço”.

Lygia Clark começou a estudar artes plásticas com Roberto Burle Marx em 1947. Em 1950, foi à Paris, onde estudou com Fernand Léger. Em 1952, fez sua primeira exposição, na Galeria Endoplastique. Neste ano, voltou ao Brasil e expôs no Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, recebendo o prêmio "Augusto Frederico Schmidt" e sendo considerada revelação artística do ano pelos críticos.

Aproximou-se de Ivan Serpa, com o qual dividiu uma exposição em 1953, em São Luís (MA), e fundou o Grupo Frente, que realizou sua primeira mostra em 1954. No Rio de Janeiro, o Grupo era formado por alunos de Serpa e outros artistas como Lygia Pape, Aluísio Carvão e Décio Vieira. Apesar de ser constituído por artistas inicialmente concretos, em sua maioria, o grupo era aberto à participação da arte naïf e infantil, representados por Elisa Martins da Silveira e por Carlos Val, respectivamente.

O período entre 1954/58 é caracterizado por suas experiências tempo-espaciais chamadas "superfícies moduladas", em que a artista rompe com a superfície do quadro e com a moldura, trazendo para a responsabilidade do artista também a construção do espaço de criação.

Em 1956/57 participou da I Exposição Nacional de Arte Concreta, mostra que reuniu artistas concretos de São Paulo e do Rio de Janeiro. Na ocasião, ficou evidenciado que as obras de Clark estavam rompendo com os padrões da arte moderna, levando as discussões para o plano da fenomenologia. Suas obras, assim como as de Hélio Oiticica, geraram novas teorias que separaram os concretos cariocas dos paulistas, levando Ferreira Gullar a desenvolver a "Teoria do Não-Objeto", e o Manifesto Neoconcreto, que foi mostrado ao público em 1959, na I Exposição de Arte Neoconcreta, no MAM-RJ. Em 1957, a artista foi premiada na IV Bienal de São Paulo.

No ano seguinte, Clark gerou novos espaços de criação, feitos a partir de maquetes, com placas cortadas formando superfícies curvas sobre uma base em forma de losangos, que a artista deu o nome de "ovos" e "casulos". Em 1960, avançou na exploração da fenomenologia em seus trabalhos, e inseriu a questão da percepção do corpo humano, criando obras que podiam ser alteradas pelo espectador. Eram chapas de metal articuladas por dobradiças, que a artista chamou de Bichos. Estas obras são revolucionárias, pois foi a primeira vez que o público podia modificar uma obra de arte, quebrando com os conceitos de aura, sacralidade e autoria única, solidificados desde o Renascimento. Estes conceitos, apesar do esforço das vanguardas anteriores, só foram quebrados com a transposição do espectador passivo, que contempla uma obra de arte, observando-a de fora, para o espectador sujeito, que age diretamente na modificação da obra. Deste modo, espectador e obra entram em uma relação dialética, em que a obra não existe sem o espectador, e vice-versa. É uma relação muito mais complexa entre espectador e obra de arte, em que ambos saem transformados e se necessitam mutuamente.

Clark expôs na Bienal de Veneza em 1960, 62 e 68, e em Nova Iorque em 1963. Teve uma Sala Especial na Bienal de São Paulo de 1963. Em 1966, expôs pela primeira vez seus Trepantes, obras também manipuláveis pelo público, feitas com borracha, plástico, caixas de fósforo e papelão, materiais novos do mundo industrial, integrados agora às artes plásticas. A partir de 1968, Lygia passou a refletir sobre as questões do corpo, integrando o público com a obra de modo sensório, em trabalhos como A Casa é o Corpo (1968) e o Corpo Coletivo (1974).

Lecionou na Sorbonne, em Paris, de 1970 a 75. Em 1978, começou a fazer experiências de utilização das obras como fins terapêuticos individuais. Dizia na época que era mais psicóloga que artista, criando situações experimentais em grupo. O fio condutor de sua obra é a relação entre corpo humano e arte.

Tatiana Rysevas Guerra
(bolsista FAPESP)
Profa. Dra. Daisy Peccinini
(orientadora)

LYGIA CLARK
Belo Horizonte, 1920
Rio de Janeiro, 1988
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