|
A
idéia é o espaço abstrato A superfície
modulada é a materialização da idéia-espaço A superfície
é construída em função da necessidade da
idéia-espaço a imprimir Linhas absolutamente iguais, horizontais e verticais, produzem entre si uma tensão oblíqua distorcendo um quadrado perfeito: o espaço então se revela ali como um momento do espaço circundante O espaço é na verdade o símbolo de nossa época. (Lygia Clark, 1958) In: Clark. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1958. Lygia
Clark começou a estudar artes plásticas com Roberto
Burle Marx em 1947. Em 1950, foi à Paris, onde estudou com Fernand
Léger. Em 1952, fez sua primeira exposição, na
Galeria Endoplastique. Neste ano, voltou ao Brasil e expôs no
Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, recebendo
o prêmio "Augusto Frederico Schmidt" e sendo considerada
revelação artística do ano pelos críticos. Aproximou-se
de Ivan Serpa, com o qual dividiu
uma exposição em 1953, em São Luís (MA),
e fundou o Grupo Frente, que realizou
sua primeira mostra em 1954. No Rio de Janeiro, o Grupo era formado
por alunos de Serpa e outros artistas como Lygia
Pape, Aluísio Carvão e Décio Vieira. Apesar
de ser constituído por artistas inicialmente concretos, em sua
maioria, o grupo era aberto à participação da arte
naïf e infantil, representados por
Elisa Martins da Silveira e por Carlos Val, respectivamente.
O período
entre 1954/58 é caracterizado por suas experiências tempo-espaciais
chamadas "superfícies moduladas", em que a artista
rompe com a superfície do quadro e com a moldura, trazendo para
a responsabilidade do artista também a construção
do espaço de criação. Em 1956/57
participou da I Exposição Nacional
de Arte Concreta, mostra que reuniu artistas concretos de São
Paulo e do Rio de Janeiro. Na ocasião, ficou evidenciado que
as obras de Clark estavam rompendo com os padrões da arte
moderna, levando as discussões para o plano da fenomenologia.
Suas obras, assim como as de Hélio Oiticica, geraram novas teorias
que separaram os concretos cariocas dos paulistas, levando Ferreira
Gullar a desenvolver a "Teoria do Não-Objeto", e o
Manifesto Neoconcreto, que foi mostrado ao público em 1959, na
I Exposição de Arte Neoconcreta, no MAM-RJ. Em 1957, a
artista foi premiada na IV Bienal de São Paulo. No ano
seguinte, Clark gerou novos espaços de criação,
feitos a partir de maquetes, com placas cortadas formando superfícies
curvas sobre uma base em forma de losangos, que a artista deu o nome
de "ovos" e "casulos". Em 1960, avançou na
exploração da fenomenologia em seus trabalhos, e inseriu
a questão da percepção do corpo humano, criando
obras que podiam ser alteradas pelo espectador. Eram chapas de metal
articuladas por dobradiças, que a artista chamou de Bichos. Estas
obras são revolucionárias, pois foi a primeira vez que
o público podia modificar uma obra de arte, quebrando com os
conceitos de aura, sacralidade e autoria única, solidificados
desde o Renascimento. Estes conceitos, apesar do esforço das
vanguardas anteriores, só foram quebrados com a transposição
do espectador passivo, que contempla uma obra de arte, observando-a
de fora, para o espectador sujeito, que age diretamente na modificação
da obra. Deste modo, espectador e obra entram em uma relação
dialética, em que a obra não existe sem o espectador,
e vice-versa. É uma relação muito mais complexa
entre espectador e obra de arte, em que ambos saem transformados e se
necessitam mutuamente. Clark expôs na Bienal de Veneza em 1960, 62 e 68, e em Nova Iorque em 1963. Teve uma Sala Especial na Bienal de São Paulo de 1963. Em 1966, expôs pela primeira vez seus Trepantes, obras também manipuláveis pelo público, feitas com borracha, plástico, caixas de fósforo e papelão, materiais novos do mundo industrial, integrados agora às artes plásticas. A partir de 1968, Lygia passou a refletir sobre as questões do corpo, integrando o público com a obra de modo sensório, em trabalhos como A Casa é o Corpo (1968) e o Corpo Coletivo (1974). Lecionou na Sorbonne, em Paris, de 1970 a 75. Em 1978, começou a fazer experiências de utilização das obras como fins terapêuticos individuais. Dizia na época que era mais psicóloga que artista, criando situações experimentais em grupo. O fio condutor de sua obra é a relação entre corpo humano e arte. Tatiana
Rysevas Guerra |