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No panorama mundial das
artes plásticas, a passagem dos anos 50 para a década de 60
evidenciou-se pelo retorno à figura e pelo abandono dos abstracionismos
– lítico, geométrico e informalismo - vertentes caracterizadoras
das vanguardas do pós-guerra e da década subseqüente. Sem
dúvida, um grande foco de vitalidade artística mundial nesse
momento foi a retomada da figuração em seus diferentes encaminhamentos.
No panorama de
facetas múltiplas que foi o do contexto histórico-artístico
desse período, destacou-se como contraponto à visão e
à sensibilidade européias a forte presença da Pop
Art, de origem inglesa, mas polarizada e difundida pelos norte-americanos,
a partir de 1962, como uma “tela de fundo” poderosa à qual
se remetiam como ressonâncias a maioria das manifestações
figurativas e realistas dessa época.
A Pop Art foi a tendência mais decisiva no quadro das vertentes
representativas da década de 1960. No nível da linguagem sua
contribuição foi muito ampla, introduzindo técnicas e
mitologias da imagem popular captadas no amplo repertório de imagens
corriqueiras relacionadas a televisão, publicidade, história
em quadrinhos, fotonovelas, jornais – um repertório icônico
extremamente rico da cultura de massa suburbana e industrial, apropriado do
horizonte cotidiano da sociedade de consumo. Sem manifestos e programas, a
Pop Art se internacionalizou rapidamente, infiltrando-se na problemática
da representação icônica e de sua comunicação.
Apesar do mérito
da Pop Art de ter inserido na arte contemporânea o fenômeno
urbano, às vezes mediante a designação do produto industrial
urbano da civilização, ela não se constituiu em única
manifestação vinculada à imagem nesse período.
Na Europa, particularmente a Escola de Paris, como também na Itália
e na Inglaterra, emergiram propostas contrárias ao informalismo. Além
da Pop Art inglesa, nos anos 50, o Nouveau Réalisme
e a Nouvelle Figuration na França e a Nuova Figurazione
na Itália foram testemunhas de que a arte se relacionava cada vez mais
com a realidade do momento.
Ainda nos anos 50, a revitalização do surrealismo, com o movimento
do PHASES, representou mais uma tendência
voltada à captação da imagem gerada no inconsciente,
levando adiante as propostas do CoBrA.
Ao iniciar os 60, a figura emergia de forma tão freqüente que
o fenômeno de uma nova figuração ficou patente. Dessa
vez, diferente da anterior, ou seja, não representativa, mas alusiva,
expressiva, podendo ter caráter fantástico ou grotesco, passando
rapidamente da condição de uma figuração representativa
de estados subjetivos, sentimentais, para uma figuração vinculada
à imagem do significado proposto pelo artista, que se abria a uma percepção
do mundo atual da paisagem urbana, das imagens que povoam seu cotidiano. Configurava-se
uma tomada de consciência de uma geração sobre o estado
da sociedade e da civilização, abordando uma problemática
mais crítica e subversiva, uma arte polêmica que dava possibilidades
da colocação de compromissos morais e políticos ante
a realidade.
Nesse horizonte de retomada da figuração, entre as alternativas
possíveis pela natureza relacional da trama cultural e da realidade
plural e múltipla com que ela se relaciona, podem-se detectar duas
polaridades significativas. Um fulcro, reunindo várias tendências,
onde se observa um renovada conexão com matrizes surrealistas, reproposições
de motivos mágicos como no PHASES
e em parte no New Dada, que no fim dos anos 50 absorve no plano da
linguagem ao lado dos objetos (oriundo dos objetos trouvés surrealistas)
o signo e o emblema de caráter mágico – quase um nova
condição metafísica.
No âmbito do PHASES ocorre um desenvolvimento
de pesquisa neofigurativa, condenando a gratuidade da arte informal e enfatizando
a expressividade, a “encarnação” da pesquisa do
imaginário.
A outra problemática comum são os movimentos autônomos
neofigurativos intimamente ancorados e inerentes à realidade histórica
do momento: a Nouvelle Figuration e seus desdobramentos, o Mythologies
Quotidiennes e a Figuration Narrative, acentuando a crítica
narrativa, assim como o grupo Cronica de la Realidad, a Nuova
Figurazione, o Nouveau Réalisme e a Pop Art.
Observam-se nas neofigurações relacionadas com a realidade contingente
linhas de pesquisa de um novo e atual realismo, entendido como uma relação
com a realidade objetiva, da vida social, urbana, não como uma representação,
formalizada, em códigos estilísticos. Portanto, a arte se vincula
à realidade não para representá-la, mas como uma possibilidade
de comunicação, como instrumento maleável de conhecimento
e de intervenção no real, que é sobretudo relação.
Nessa situação, a atitude do artista é decisiva para
definir a natureza da relação com o momento do real, dependendo
de uma consciência de realidade social, de uma objetividade da análise
de sua realidade.
No Brasil, as vertentes neofigurativas – PHASES, Nouvelle Figuration, Mythologies Quotidiennes, Figuration Narrative, Nouveau Réalisme, Pop Art – fizeram sentir suas influências em diferentes intensidades, no começo da década de 60, trazendo um universo novo de possibilidades poéticas e operativas.
No país, ao iniciar
os anos 60, as artes plásticas se apresentavam sob a esfera de influências
do informalismo e de variantes do abstracionismo, bastante difundido pelas
Bienais de São Paulo. A esses elementos acrescia-se um outro componente
local, o concretismo, de raiz suíço-alemã, que se disseminará
aqui, polarizando grupos de artistas de São Paulo, em 1952 (Grupo
Ruptura), e do Rio de Janeiro, em 1954 (Grupo
Frente).
Ao findar a década de 50, os concretistas cariocas desvincularam-se
da ortodoxia concreta e ampliaram suas propostas, dando lugar à expressão
lírica, buscando uma comunicação com o público
nas suas articulações espaço-construtivas (Neoconcretismo)
– experiências que seriam retomadas nos anos 60 no eixo Rio-São
Paulo.
No quadro político,
a década de 60 se abria sob a euforia do desenvolvimentismo do presidente
Juscelino Kubitschek. Os primeiros anos foram de efervescência populista
com os governos Quadros e Goulart, atalhada pela instauração
do regime militar em 1964, acontecimento que levou vários artistas
a sintonizar seu fazer artístico com os anseios de resistência
civil, ligando-o cada vez mais com a realidade do país. É nessa
conjuntura histórica que chegariam os influxos das neofigurações
européias e, de uma forma mais indireta, a Pop Art norte-americana.
É inegável que os processos artísticos tiveram imbricações
com os lances da política nesse período, particularmente as
manifestações neorealistas, ligadas ao pensamento da esquerda,
cujos integrantes dominaram a produção cultural do país
até 1968.
Particularmente setores da classe média urbana, intelectuais e estudantes, desenvolveram intensa militância política e cultural, mobilizando-se em torno de perspectivas e de transformações estruturais do país. No tocante à cultura e, portanto às artes, a atuação dos Centros Populares de Cultura vai atrair jovens intelectuais objetivando a construção de uma cultura nacional, popular e democrática. Os CPC’s, que se organizavam aos poucos a partir de março de 1962 em algumas regiões do país, propunham uma ação conscientizadora junto às classes populares. O papel do artista é outro, o de “revolucionário e conseqüente”, e sua rate definida como instrumento a serviço da revolução social buscando travar contatos com bases universitárias, operárias e camponesas. Nesse contexto, em que a arte e a cultura foram meios para a organização das massas, é compreensível que o teatro ocupasse um lugar privilegiado.
Essa dinâmica cultural
foi bastante afetada pela instauração do regime militar, cabendo
às elites intelectuais desempenhar um papel de resistência, até
que ela fosse impossibilitada pelo AI-5, em 1968. Portanto, deve-se refletir
que os processos artísticos dos anos 60 se desenvolveram nesse clima
de resposta ao golpe, de sobrevivência do programa cultural iniciado
pelos CPC’s ou influenciados de alguma forma por estes, emitindo sinais
de protesto e prosseguindo na militância política na produção
cultural – seqüência do Cinema Novo, Teatro Opinião,
Teatro Oficina, a música dos jovens baianos.
No setor das artes plásticas, no período de 1964 a 1968, observa-se
a confluência dos movimentos neofigurativos internacionais com a disposição
dos artistas de trabalhar com essas novas linguagens, que possibilitavam uma
abertura nova, atual e dialógica com a realidade.
Mesmo artistas reconhecidamente apolíticos, ou não engajados
com a esquerda, como Wesley Duke Lee,
instigados pelo golpe militar, a partir de 1964 se empenharam em assumir com
sua arte uma posição crítica da realidade brasileira.
Percebe-se também um distanciamento do programa mais local e popular
da arte engajada do período do governo Goulart.
As correntes internacionais – Pop Art, Mythologies Quotidiennes,
Nouveau Réalisme – e a própria condição
social do artista da pequena burguesia urbana incitaram-no às temáticas
urbanas, mais universais; às mitologias da classe média: ídolos
do cinema, TV, futebol, cartazes publicitários, violência; ou
a temas de contestação da juventude européia e ianque:
a bomba, o militarismo. A utilização de meios que possibilitassem
uma comunicação mais efetiva revestia-se de importância
fundamental – a produção de obras que estabelecessem uma
relação comunicacional com o público, provocando a crítica,
o humor e, mais adiante, com Lygia Clark e Hélio Oiticica, as revelações
psicossensoriais.
Na confluência de vários projetos de vanguarda, situa-se a Nova Objetividade Brasileira, uma neovanguarda que erigiu – como proposta de uma arte comprometida com uma produção cultural de militância política – uma complexa articulação de modernidade, de renovação artística tributária do internacionalismo das artes e ao mesmo tempo imbricada com um pensamento político, uma criatividade mais autêntica e original, no sentido de se situar ante parâmetros atuais da realidade nacional e de dar continuidade ao amplo movimento didático conscientizador iniciado pelos CPC’s.
Daisy Peccinini













