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São Paulo (1946)
O homem quer
sempre buscar uma imediata representação e entendimento de símbolos
do cotidiano. Por sua vez, Carmela combate este fato ao libertar idéias
prévias dos objetos para proporcionar uma abertura para o mundo diante
do diálogo olho e imagem.
Carmela Gross
nasceu em São Paulo, em 1946. Sua formação acadêmica
é realizada no curso de Arte da Fundação Armando Álvares
Penteado (1965-1969), onde recebe influência dos professores Flávio
Império, Flávio Motta e Rui Othake. Começa a divulgar
seus trabalhos a partir de 1966, que variam entre esculturas, pinturas, gravura,
intervenções públicas e principalmente desenhos. Ingressa
no ensino universitário como professora de Artes Plásticas da
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São
Paulo, onde atua até hoje. Em 1981, apresenta o trabalho Projetos para
a Construção de um Céu que lhe proporciona título
de Mestre em Artes, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo. Ao apresentar o conjunto de obras Pintura-Desenho, em
1987, a artista obtém o título de Doutora em Artes também
pela Escola de Comunicações e Artes.
Ela emerge no
cenário artístico dos anos 60, quando se torna evidente o uso
de imagens a serviço do consumo do objeto. Criticando tal processo,
os artistas buscam inspiração poética no cotidiano através
de múltiplas técnicas de reprodução serigráfica,
heliográfica, xerográfica, a partir das quais pode desconfiar
da sedução publicitária.
A artista quer
atualizar e re-significar o olhar sobre as coisas do mundo. Ela trabalha para
intervir no real e usa seu trabalho como veículo de sensibilidade,
o qual apresenta rigoroso pensamento sobre os meios visuais propostos pelo
teor conceitual e processual.
Os desenhos são
a produção mais significante do quadro artístico de Carmela.
Desenhos geralmente apontam uma estrutura de obra acabada, ao contrário,
os desenhos de Carmela se apropriam de outros materiais e procedimentos,
preenchendo o espaço e o tempo, mediados por instrumentos de repetição
e gestos mecânicos. Deste modo, a artista tende a destacar valores sensíveis
existentes em pequenas unidades artísticas justapostas e repetidas,
como acontece com a série Cartões-Familiares de 1975-1976 e
Carimbos de 1977-1978.
A reflexão
de Carmela se concentra no ver o que está distante e o que não
é definido. Algo que não é evidente aos olhos humanos.
Esse foi o fio condutor para Projeto para a construção de um
céu exposto na XVI Bienal Internacional de São Paulo (1981)
e da Série Quasares (1983), cujo conjunto de obras é exposto
no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Por essa linha de reflexão,
Carmela sugere que é o nosso olhar o guia da compreensão
das imagens, isto é, elas somente se apresentam de tal forma devido
à junção do olhar interno do espectador com o espaço
externo.
O ponto decisivo
da obra de Carmela é o sujeito que contempla a obra, ao invés
do objeto contemplado. Com essa subversão da ordem do sentido, a surpresa
diante do imprevisto se torna característica marcante da obra de Carmela,
que ganha destaque quando ela utiliza técnicas de preencher vazios,
inverter valores e jogar com relações entre parte e todo.
Luciana
de A. Leite
[bolsista IC - FAPESP]
Daisy V.
M. Peccinini
[coordenadora MAC-USP]